terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ainda o assassinato de Cabral

As intrigas dentro do PAIGC eram mais que muitas, os contactos com a PIDE pareciam ser uma alavanca, uma arma secreta dos traidores... E não estamos apenas a falar dos que essa «polícia» soltou (e, segundo alguns, telecomandou). É óbvio que a PIDE estava apostada numa estratégia de promoção das clivagens dentro do PAIGC, mas isso era mais que sabido, não era novidade nenhuma, sendo um factor de importância menor, como trama. Como o eminente historiador Leopoldo Amado escreveu, num artigo publicado pelo site do Didinho,

«à introdução da autonomia progressiva como isco, ao mesmo tempo que, por um lado, se exploravam as diferenças étnicas entre os guineenses, e, por outro, entre estes e os caboverdianos, Cabral contrapôs...»

Ora não há qualquer traço, nos arquivos da PIDE, da preparação de uma operação de tal envergadura (ao contrário de outras pequenas operações de muito menor importância, largamente documentadas). Lembre-se que o General Spínola lamentou publicamente a morte de Cabral. Como defende Joaquim Luís Fernandes, em comentário à mais recente entrevista (pelos vistos, quebrada) de Leopoldo Amado a'O Democrata, é difícil conceber que a PIDE fosse contra a política do General Spínola.

Na minha leitura pessoal e falível, o Leopoldo ficou irritado (e com razão) com a escolha de um título sensacionalista (passe a sua relevância), ainda para mais tendo ficado previamente acordado o seu direito de revisão. No contexto das acusações recentemente levantadas contra Pedro Pires, e talvez para desfazer um pouco o seu impacto, terá adoptado a política de «uma no cravo outra na ferradura», malhando a ferro frio, ou seja, insistindo na tecla da PIDE e dos «agentes duplos». No entanto, todas as evidências apontam claramente noutro sentido. Havia quem jogasse com pau de dois bicos...

Recordo-me de, há uns anos, o blog do Luís Graça ter partilhado um artigo de José Paulo Fafe de 1999, precisamente com base nos arquivos da PIDE, a história dos contactos de Nino Vieira, via Suíça, para se «render», com os seus homens, em troco de uma vida descansada (aburguesada) em Lisboa (nalgum momento em que se terá sentido mais tremido, devido a outras grandes responsabilidades)... Grande violência para o General Spínola, o qual, por detrás do júbilo manifestado publicamente na ocasião com essa perspectiva (que, como todos imaginam, não se chegou a concretizar), sentia a dor de ver reproduzido o filme (a ideia) pela qual morreram os seus Majores, ainda para mais, na pessoa que, na altura, teve por principal responsável pelo nefasto e bárbaro acontecimento, Nino Vieira e Pedro Pires... (que se saiba, Nino nunca comentou este artigo).

Quanto à PIDE, «coitada»… Quando foi o descalabro de Guiledje, o Director Geral telefonava para Bissau a perguntar se ainda se combatia em «Guidage no Sul» (confundindo os G’s da Guiné). Neste caso, não podemos afirmar que a PIDE tenha instrumentalizado os assassinos (muito mais plausível seria supor que estes sim foram instrumentalizados por «poderosas forças obscuras», que lhes deram cobertura para o efeito, pois estes ofereciam-se como bodes expiatórios ideais), mas decerto que podemos garantir que a PIDE está a ser «instrumentalizada», assancando-se-lhe uma força e capacidade que esta não tinha (nem no terreno, nem em relação à tropa ou na própria sociedade portuguesa), com o intento de apagar as pistas para os verdadeiros culpados.


Replicando um dito que li no irmão Doka:

Sanguessuga sta na nô metadi.

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